Entrevista – Autora Luísa Castel-Branco

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No passado dia 21 de maio surgiu a oportunidade de fazer uma entrevista à autora Luísa Castel-Branco. Como podem imaginar fiquei super feliz e mesmo com aquele frio na barriga lá fui eu. Foi uma experiência espectacular e inesquecível. A Luísa é uma pessoa divertida e humilde. Tem muitas histórias para contar e eu poderia ficar horas a fio a ouvi-la falar. Obrigada Luísa e obrigada Clube do Autor, na pessoa da Berta Silva Lopes por esta oportunidade.

 

1 – Qual é a diferença mais marcante da Luísa de agora e da Luísa de a 40 anos atrás.

A 40 anos atrás eu tinha 26 anos, era uma jovem apaixonada e que ia casar. Tinha muitas expectativas e era uma jovem que comparando com as jovens de hoje era muito diferente. O meu pai tinha muitos livros e eu tinha acesso a vários livros e por isso era uma jovem privilegiada porque sempre tive acesso a muita leitura. Era muito pueril, sonhadora e trabalhadora. Depois do 25 de Abril mudou muita coisa, mas comparando com hoje em dia, éramos muito inocentes. Naquela altura nós casávamos para a vida toda, comecei a namorar com 18 anos e a primeira vez que tive autorização de sair com o meu namorado foi aos 21 anos.

2 – A Luísa sempre quis escrever? Quando surgiu o seu primeiro romance?

Eu sempre escrevi e sempre quis escrever, era normal para mim. No entanto, nunca achei que conseguia escrever um romance. Fui educada para ter grande respeito pelos livros e por isso assumir que ia escrever um romance era um insulto. Nunca verbalizei a ninguém que queria escrever um livro e apesar de sonhar, nunca achei que seria capaz. O primeiro livro surgiu através de uma editora que me convidou para escrever um livro depois do meu primeiro programa televisivo ter tido muito sucesso. Escrevo compulsivamente e o livro surgiu depois de eu ter tido o AVC. Foi depois desse acontecimento quando comecei a viver mais silenciosamente que fui capaz de escrever um romance.

3 – Acha que ser uma figura pública ajudou no sucesso dos seus livros?

Sim, sem dúvida. E por isso compreendo que haja pessoas revoltadas. Recebi várias mensagens de pessoas que me disseram que eu só consegui publicar porque fazia televisão. E não tenho dúvidas que isso ajudou nas vendas. Se não fosse a televisão eu teria de andar a bater nas portas dos editores e só talvez um deles acharia que eu tinha capacidade. No fundo é a sociedade de hoje em dia e as coisas acabam por estar todas interligadas. Isto sempre contribuiu para um sentimento de inferioridade meu, porque faz-me pensar se as pessoas compram porque gostam do que escrevo ou se é por me verem na televisão.

4 – Quais são os seus escritores favoritos e que a inspiram?

A Agustina Bessa-Luís fascina-me e sou capaz de estar horas a saborear uma frase e pensar que é preciso escrever muito bem para conseguir escrever assim. Adoro as crónicas de António Lobo Antunes. Gosto muito daquele imaginário sul-americano, García Lorca, fascina-me.

5 – Algum livro que a marcou?

O livro que mais me marcou e que já o reli várias vezes é o “A leste do paraíso” do Steinbeck. É o livro mais exemplar e que se consegue falar do bem e do mal.

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6 – Os livros que leu na sua infância deveu-se às escolhas dos seus pais ou foi uma escolha aleatória?

Foi uma escolha aleatória porque eu tinha acesso a mais de 5 mil exemplares.

7 – De todos os seus livros publicados qual o seu favorito?

“Alma e os mistérios da vida”. Foi o primeiro que escrevi, foi o meu primeiro amor. Depois o segundo “Não digas a ninguém” foi o livro mais difícil que escrevi porque é um livro em diálogo e é difícil de escrever um livro assim. Tem uma trama muito bem feita e dá-me gozo. Os outros gosto deles de uma forma especial.

8 – Qual a sua personagem favorita?

Alma. Foi o deslumbre de descobrir que sou capaz de criar algo. Foi a primeira e por isso é a minha favorita.

9 – A Luísa tem algum momento do dia para escrever?

A noite, no silêncio. Odeio que o telefone toque, odeio interrupções. Sou capaz de escrever 14 ou 15 horas seguidas. Mas as coisas surgem em qualquer lado e pode aparecer nos lugares mais impróprios. Já estive na casa de família e ir a casa de banho e escrever no rolo do papel higiénico.

10 – Está a ler algum livro no momento?

Não. Estou a trabalhar no meu próximo livro. Ando a ler muito pouco mas penso que isso deve-se a minha ânsia de escrever. Como comecei a escrever tarde, tenho sempre muita vontade de escrever e por isso pouco tempo para ler.

A Luísa não quis falar do novo livro porque os livros por vezes começam por ser uma coisa, mas acabam tornando-se outra coisa muito diferente. Escreve com alma e por norma não cria um enredo por isso muitas vezes o trabalho final é muitas vezes diferente do trabalho inicial.

11 – Se pudesse ter sido a autora de um livro que leu e que gostou qual teria sido? E porquê?

Esse é uma pergunta interessante. Não sei o que te dizer. Mas eu teria de ser uma mulher guerreira. Gostava de ter vivido no século XIV, gostava de ter sido cortesã, gostava de ter sido espia. Gostava de ter sido alguém que desafiava as leis da época.

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12 – O que a levou a escrever sobre si?

Não foi uma necessidade, acabei por optar por textos mais curtos e quando dei por mim estava a escrever um livro autobiográfico. Não foi preparado mas agora vejo que de facto havia essa necessidade.

13 – Este livro é uma junção de pequenas histórias mas é principalmente sobre sentimentos, sobre amor, mágoa, paixão, nostalgia, alegria, tristeza. Não sentiu receio ou medo que as pessoas a julgassem? Porque no fundo está a mostrar-se ao mundo.

Eu gostava que as pessoas soubessem quem eu sou realmente antes de eu um dia desaparecer. Eu não digo o morrer mas sim o perder as memórias, perder as capacidades. Fiquei com esse receio depois de ter o AVC.

14 – Nos seus olhos vejo o mundo. Será que não vemos cada vez menos nos olhos dos outros o mundo?

Eu acho que sim. Essa frase foi retirada de um texto que eu escrevi para o meu neto Simão. Quando lidamos com os outros temos capas para nos proteger e numa sociedade que é cada vez mais preconceituosa em relação à beleza, à idade, etc., tu acabas por te defenderes e raramente somos verdadeiros com as pessoas. As vezes não consigo perceber as pessoas e isso confunde-me, no entanto, gosto quando as pessoas surpreendem-me.

Espero que tenham gostado tanto como eu e acima de tudo tenham ficado com vontade de ler os livros da Luísa Castel-Branco.

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Podem ler ou reler a minha opinião sobre o último livro da Luísa Castel-Branco aqui: https://estrelasnocolo.wordpress.com/2016/05/23/nos-teus-olhos-vejo-o-mundo-luisa-castel-branco/

Desta entrevista ficou acima de tudo a mensagem que nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos!

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