António e Isabel do Arco da Calheta – João França [Opinião]

29243250Opinião:

No último dia que estive no programa da RTP Madeira “Madeira Viva” (para quem não sabe tenho uma rubrica neste canal de 15 em 15 dias) foi-me informado que tinham deixado uma mensagem para mim, com um desafio para ler autores regionais, nomeadamente João França e Horácio Bento Gouveia. Eu gosto de desafios e por isso decidi aceitar. Estreei-me com este livro de João França “António e Isabel do Arco da Calheta” que é baseado em factos verídicos. Mas antes de avançar vou apresentar o autor madeirense.

João França, é um madeirense, antigo jornalista, escritor, poeta, ator e dramaturgo, nascido no Funchal, à R. do Carmo, no dia 23 de junho de 1908. Filho de Belchior de França e de Maria José Pacheco França, morreu em Lisboa a 30 de janeiro de 1996. O autor destacou-se no panorama literário madeirense como um romancista e jornalista de envergadura, 100% ilhéu, e, nessa qualidade, faz parte de diversas obras de investigação literária. Tem várias obras publicadas e eu já tenho em mãos algumas dessas obras, que foram gentilmente cedidas pelo senhor Ivo Martins, sobrinho do escritor, que prontamente me contactou. Confesso que fiquei surpreendida, entusiasmada e ao mesmo tempo receosa porque era um desafio algo difícil. Fico sempre admirada quando me contactam porque, tenho de confessar, não creio que o meu trabalho faça jus ao que muitos escritores escrevem.

Este desafio começou então pela leitura do livro “António e Isabel do Arco da Calheta” já que a sinopse deixou-me extremamente entusiasmada já que aborda um caso verídico que sucedeu na freguesia onde morei até o ano passado e onde cresci, o Arco da Calheta, uma freguesia que pertence ao Concelho da Calheta.

Tal como indica a introdução do livro, “esta é uma história de amor, no seu conjunto, porque assim nasceu, mas não apenas isso”, porque, além de abordar o romance atribulado entre António e Isabel, aborda também como era a vida da alta sociedade no século XVI. Como nota introdutória e para quem não sabe fica a curiosidade que foi a Calheta a área escolhida por Gonçalves Zarco (descobridor da Madeira) para doar terras ao seu filho João Gonçalves da Câmara e D. Beatriz Gonçalves.

Muito resumidamente, este livro aborda a paixão que António sente por Isabel e conta como a raptou para se poder casar com ela já que não lhe foi permitido de outra forma. Neste livro, João França, soube inteligentemente abordar este assunto, romantizando-o e dando-lhe as características necessárias para se tornar um belo romance histórico, cativando vários tipos de leitor, já que além do romance, aborda a vida da nobiliarquia.

António Gonçalves da Câmara, era filho de Pedro Gonçalves da Câmara e de D. Joana de Eça que moravam na freguesia do Arco da Calheta (não sei precisar a zona infelizmente) e eram vizinhos de Isabel de Abreu, filha do fidalgo João Fernandes de Andrade e de D. Beatriz de Abreu. Devo referir, antes de continuar que este episódio romântico foi pela primeira vez descrito pelo famoso escritor Gaspar Frutuoso do livro “Saudades da Terra” e com acentuadas diferenças já que o início retratado neste livro por João França aborda o relacionamento entre os dois de uma forma diferente. No meu entender, João França tomou essa atitude para poder dar mais vida ao romance assim como para criar mais  verossimilhança aos personagens. E é de referir igualmente que este é um romance que se BASEIA em factos verídicos, ou seja, não é uma história que é contada exatamente como aconteceu já que isso é impossível.

Quando comecei esta leitura confesso que estava um pouco “assustada” já que não sabia o que me esperava. Mas quando comecei a ler praticamente não o consegui largar. Foi um livro que me “agarrou” desde o primeiro momento e que me acompanhou durante vários dias após o término da leitura. Em primeiro lugar isso aconteceu por se tratar de uma história que se baseava em factos verídicos e em segundo lugar porque era uma história de amor simplesmente fantástica.

João França soube criar personagens cativantes, principalmente António que se mostrou um personagem persistente e fiel à sua paixão. Muitas vezes comparei este personagem madeirense com o tão famoso personagem Mr. Darcy da literatura inglesa já que tal como Mr. Darcy, António era um jovem misterioso, cabisbaixo e fiel aos seus princípios. De facto, João França retratou este personagem como sofrível e muito introspetivo.

É um livro de leitura fervorosa já que queremos saber o que vai acontecer. É verdade que o António rapta Isabel, o leitor de início que sabe isso, mas que acontecerá? Isabel finalmente vai aceitá-lo ou vai rejeitá-lo? E o que acontecerá a António quando o Rei souber o que aconteceu?

João França ao longo do livro descreveu a freguesia do Arco da Calheta de uma forma linda e sublime que me comoveu sobremaneira e deixo-vos aqui uma das minhas citações favoritas: “Olha ele em volta a serra semicircular, num quase desenho de larga ferradura de pontas voltadas para o Sul, e como se toda ela fosse uma angra de verdes novidades, entre as quais avultam os vinhedos e um mar ondulante de canaviais em crescimento. Lá em baixo alonga-se uma centena de braças de uma fímbria atlântica a espumar-se na praia cascalhuda. Ao longe estão a confundir-se os tons azuis da linha do horizonte marinho.”

Além de tudo o que referi em cima, o escritor apostou também na pormenorização de outros pormenores como facto de D. Joana de Eça, mãe de António ser camareira-mor de D. Catarina de Espanha, esposa do Rei D. João III e de António ser também ele monteiro-mor do soberano.

É claro que não podia faltar a personagem despeitada, aquela pela qual o leitor sentiria uma repulsa imediata, que neste caso foi encarnada por Águeda, irmã mais velha de Isabel. O escritor soube construí-la muito bem já que foi uma personagem que eu odiei profundamente já que foi ela a causadora de muito mal-estar ao António.

Foi com muita satisfação que vi que o autor terminou o livro de uma forma fantástica e muito romantizada, aquecendo ainda mais o meu coração, permitindo-me sonhar mais um pouco com a relação deste casal. É um livro fenomenal e que irei guardar na memória assim como no coração com muito carinho.

5*

Sinopse:

Na mesma linha do seu romance A ILHA E O TEMPO, no qual esteve a vida social na primeira metade do Século XVI, o romancista ilhéu vem debruçar-se sobre outro caso passado nessa mesma altura e por sorte mais real do que aquele a visar a terra agrária e a água de giro. Agora é a vivência de uma alta sociedade preocupada com a nobiliarquia e os casamentos de interesse fidalgo. Em leve estilo, a que não falta o sentido de humor saudável, sem deixar de ser realista, o romancista de ANTÓNIO E ISABEL DO ARCO DA CALHETA traz ao presente a história do célebre rapto de Isabel de Abreu. Em ação constante, se narram os acontecimentos provocados por esse mesmo escândalo, cuja repercussão passou fronteiras. Contudo, nem só o drama se depara, dado que a história também teria cômicas situações. A par de todo o conflito, evidente está a vontade humana do encontro com a paz.

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